Ou vice-versa.
Conhecer pessoas novas é fácil. Conhecer pessoas que nos façam ter vontade de conhecer mais, é menos fácil. Conhecer alguém que retribua esta vontade e que nos vicie no seu ser, é o verdadeiro jackpot. Começar a analisar toda a bagagem que esse ser encerra em si, é fatal. Quase tão fatal como inevitável.
Teoricamente, e no mundo das probabilidades, sabemos que todos temos bagagem. Ela já não vai a lado nenhum. Todos nós guardamos e acumulamos coisas mais ou menos pesadas. Uns com a coragem de assumi-las, outros nem por isso. Na verdade, se todos fossemos brutalmente honestos sempre que nos damos a conhecer, acusaríamos, invariavelmente, excesso de peso. Isto parece-me pacífico. Porque é que, tendo isto como facto adquirido, tantas vezes analisamos a bagagem alheia até à exaustão? Retiramos conclusões, presumimos, julgamos. Estamos a ser honestos? Não receberíamos a mesma reação do lado de lá, se fossemos? Quem é que não tem esqueletos no armário? Quem é que não gostaria de apagar um qualquer capítulo da sua vida? Este julgamento gratuito tem consequências. As pessoas não se mostram como antes, não abrem o livro, não se revelam na totalidade. Falhamos muito, erramos ainda mais, mas quando alguém, cujo processo de conhecimento iniciámos há pouco, tem a frontalidade de abrir a mala e mostrar-nos o que carrega consigo, assustamo-nos e fugimos? Sim, porque a nossa mala está vazia. Não há lá nada para ninguém ver. Ou até há, mas está tudo organizado e perfeitamente arrumado, no sítio certo, numa perfeição inatacável. Porque é isto que queremos mostrar.
No que me diz respeito, não acredito em vidas muito certinhas. Em adultos sem esqueletos. Tenho alguns, tenho vários. E não estão trancados, mas também não estão à vista de quem não me dá o mesmo benefício da dúvida. A melhor coisa que me pode acontecer, é conhecer alguém que se revela sem pudores. Que sabe que tem bagagem porque está vivo e é humano. Que sabe que esta é a única forma sincera de conhecer alguém. Confio mais depressa nestas pessoas, do que naquela que me apresente uma "folha limpa". Percebo que é cada vez mais difícil mostrar quem somos, perante cada vez maior tendência para julgar os outros. Mas esta é a forma de estar que aceito. Não me pintem cenários cor-de-rosa. Eu não vou, certamente, pintá-los. Falta-me a paciência e a imaginação para criar uma personagem que não existe.



