A propósito dos anos que vão passando por mim, parece-me boa altura para aqui falar do meu instinto maternal. Ou da falta dele, neste caso. Quando se é Mulher, e sobretudo quando se passa a barreira dos 30, chega a inevitável pergunta, feita vezes sem conta, das formas mais inapropriadas e pelos mais diversos interlocutores "Não sentes vontade de ser Mãe?". Não, não sinto. Por enquanto. Até este momento, não houve altura da minha vida em que sentisse esse apelo. Nunca tive esse sonho, nunca fui a típica Mulher nesse (e noutros) aspecto (s). Não necessito de um filho para me sentir mais realizada ou para estar de bem com a vida. Para isto também contribuiu, certamente, o facto de não ter conhecido homem, até hoje, que me tenha feito idealizar a Maternidade. Ou conheci/conheço um, mas isso é uma outra história. Seja como for, e por muito que isto choque a maioria das pessoas, a verdade é que sinto, muitas vezes, que nasci desprovida desse instinto. Ou então, está tão escondido, tão no fundo de mim, que ainda não se manifestou. Muitas pessoas me dizem que um dia acordo, e lá está ele. Honestamente, tenho algumas dúvidas que assim seja. Não me sinto nem mais perto, nem mais longe. Sinto-me na mesma, com a mesma ausência dele que sentia há anos e anos atrás.
Isto é entendido por muitas pessoas como normal. O problema acontece quando, e geralmente esta reação vem de outras mulheres, mazinhas umas para as outras como sempre, sou olhada como uma aberração quando dou esta resposta. Já recebi olhares de horror, de estupefacção, de quase nojo (diria eu), de incredulidade. Já recebi respostas de bradar aos céus, julgamentos de me fazer urticária, reacções de me fazer cegar. "A sério?? Isso é tão estranho", "Não acredito!", Não digas isso, que até te fica mal!", ou "Credo", são alguns exemplos. Pois, a estas pessoas, eu digo o seguinte de forma muito simples : ide lixar-vos!! Mas assim à grande! E só estou a utilizar esta palavra e não outra mais cabeluda, porque, apesar da nerveira que este assunto me causa, ainda me resta a educação.
Não peço, nem alguma vez pedirei, desculpa por não ter instinto maternal. Por ter a coragem de assumir que não me imagino a ser Mãe (até ver). Por gostar da minha vida tal como ela é, com toda a liberdade que isso me proporciona. Por conseguir ser feliz, sem ter que viver para outra pessoa, seja ela uma criança ou não. Eu não julgo as pessoas que optam por ter filhos, a não ser que o façam sem ter condições. Não ando a perguntar como é que conseguem viver vidas em função deles, exclusivamente, e esquecer-se que, antes disso, eram mulheres e homens. Não admito, pelo mesmo motivo, ser julgada pela minha opção. Não sou menos mulher, não tenho menos direitos, não devo ser enfiada num laboratório para estudo, por esse motivo.
Adoro os filhos dos meus Amigos, e Amo de paixão a pequena M., filha da minha "mana". Pela pequena M., aliás, tenho certeza que daria a vida, tal e como qual os Pais dariam. Mas perguntem-me se tenho instinto maternal, e/ou vontade de ser Mãe? Não. até ver, é um não sem qualquer margem para dúvidas. E esta, hein?