É basicamente isto.

É basicamente isto.

27 de agosto de 2013

Dos Incêndios ao Jornalismo deplorável.


Tenho cometido a injustiça de não falar de um dos maiores flagelos que atingem este País, todos os anos, nesta altua do Ano. Não que os incêndios que têm consumido este País e arrasado com vidas e famílias não me mereçam a devida atenção, mas porque é um assunto que me deixa, fisica e literalmente, mal disposta. Toda a minha vida tive pavor de chamas, ao ponto de terem povoado os meus pesadelos durante um bom tempo. Ligar a televisão e ver imagens diárias de incêndios, deixa-me completamente petrificada, sem acção, agoniada. Juntemos ao facto de inúmeras pessoas perderem tudo o que levou uma vida a construir, as mortes dos Bombeiros que os combatem, e estamos perante um tema que me causa uma repulsa e uma revolta maiores do que quaisquer palavras podem exprimir. Não deve haver nada mais aflitivo, por estes dias, do que ser familiar dos Bombeiros que arriscam as vidas por todos nós. Deve ser um constante viver com o coração nas mãos. A minha vénia a todos e às suas famílias. À coragem demonstrada todos os dias, com um retorno financeiro tão desproporcional. Não tenho qualquer duvida que estamos perante pessoas de corações gigantes.
Depois da agonia com que vejo estas notícias, com que acompanho o repetir de verões anteriores, vem a estupefacção com os Jornalistas que cobrem as notícias dos incêndios. Não pretendo aqui fazer um ataque a esta classe, até porque há o bom, o mediano e o mau jornalista, como em tudo nesta vida. Mas gostava muito de perceber a atitude dos jornalistas nestas situações. Perguntas como "O que é que está a sentir?", "É uma desgraça muito grande o que está a acontecer, não é?", " E agora, que perdeu tudo?", "Como é que tem vivido as últimas horas?", feitas às pessoas que estão ali, expostas, a ver desaparecer tudo o que tinham, é coisa que me causa uma repulsa difícil de quantificar. É mau jornalismo, é exploração, chega a ser, pura e simplesmente, cruel. Custa-me este mundo e o outro, ver o desespero daquelas pessoas que, talvez por não estarem em si, lá vão respondendo a este tipo de questões. Que jornalismo é este? É em prol do sensacionalismo, apenas? Quem é que acha que tem o direito de , num momento de aflição destes, proferir as mais rídiculas e impróprias perguntas? Sou completamente contra a cobertura de incêndios, da forma como é realizada. Não só me parece imprópria ao nível da exploração da desgraça alheia, como sempre achei que o visionar destas imagens, na televisão, por parte dos incendiários, lhes deve dar o gozo que pretendiam e que anseiam. Muitas vezes, será isso que os move. "Isto é obra minha", devem afirmar com os olhos a brilhar.

Já agora, e quanto aos incendiários, quero só acrescentar que não há pena de prisão que me pareça adequada a animais destes. E se não há pena de prisão...está tudo dito.

21 comentários:

  1. Esse tipo de jornalismo também me deixa doente. Mas olha que essas perguntas costumam aparecer sempre que há uma tragédia, seja de que tipo for. Por exemplo, costumam perguntar a uma mãe que perdeu um filho qualquer coisa como "O que é que sentiu?". Esta gente apanhou pouco em criança é o que é!

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    1. Essa então, arrasa comigo. Ir entrevistar alguém que acabou de perder um filho ou um outro familiar, é qualquer coisa que não consigo qualificar. Havia de ser comigo...

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  2. A pergunta "como se sente neste momento?" em situações destas, assim como noutras tragédias (lembro-me perfeitamente da queda da ponte em Entre-os-Rios e estarem a falarem com os familiares das vítimas e fazerem estas pergunta brilhante), merecia apenas uma resposta: "sinto-me com vontade de o(a) mandar para o raio que o(a) parta!!"
    (que é para não dizer pior)

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    1. A Never escreveu exactamente o que eu ia escrever: levassem eles uma resposta à altura, assim bem épica, talvez abrissem os olhos. Só que, claro, as pessoas estão num momento frágil e acabam por não conseguir dar respostas assim...

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    2. Eu não acredito muito que ainda não tenha existido alguém que tenha perdido a cabeça, e tenha enfiado uma real bolachada na cara do jornalista...

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  3. Suponho que seja um dos efeitos da silly season na televisão. Perante a falta de melhores notícias, impingem-nos directos que duram uma eternidade (para justificar os telejornais de hora e meia, já que não há outra programação para preencher a grelha), onde os repórteres enchem chouriços como podem, nomeadamente com recurso a essas perguntas e observações pertinentes, "como se sente?", e afins, para não falar nos clichés "foram horas de verdadeiro inferno". Pelo amor da santa! Se, por um lado, o excesso de inalação de fumos e consequente fraca oxigenação do cérebro pode, com boa vontade, justificar as pérolas que saem da boca dos repórteres em campo, que desculpa terão os chefes de redacção e editores que, nos estúdios, permitem que peças dessa "qualidade" e duração sejam emitidas? Lá está, efitos da silly season.

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    1. Não dá para entender. Ou então é resultado de uma sociedade que consome todo o tipo de m**** que dá na televisão, e quanto mais virada para a exploração, melhor. Temos aí o exemplo das audiências de programas como a "Casa dos Segredos" e afins. Fenómenos inexplicáveis.

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  4. As coberturas jornalísticas a que tenho assistido destes eventos têm sido muito infelizes mesmo... Este tipo de exploração da dor sempre me causou alguma repugna...

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    1. Uma pessoa chega a ficar com um nó na garganta, só de imaginar a dor daquelas pessoas. Como é que alguém consegue aproximar-se e fazer este tipo de perguntas...??

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  5. O pior que vi, há pouco tempo, foi quando um carro militar se despistou, no Funchal, atropelando e matando uma senhora que estava a ajudar na limpeza das estradas. Calhou a estar por lá uma equipa da SIC, que prontamente montou um espetaculo televisivo, atrapalhando quem prestava auxilio e fazendo as tais perguntas absurdas a quem por ali estava.

    Mas no geral, o jornalismo em Portugal atravessa uma fase muito má. E não me venham com história que é silly season, silly é quem está à frente de uma estação de televisão e não tem visão para mais do que isto que se tem apresentado.

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    1. Eu não me recordo de ver o jornalismos em Portugal a atravessar uma boa fase, confesso. Com as devidas excepções que existem sempre, mas falando da maioria não me recordo...

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  6. Há perguntas sem nexo. As pessoas respondem porque se também fossem "mal educadas" parecia mal...

    Acho que também não é por mal, porque ao fim ao cabo, que perguntas poderão fazer?

    Beijocas

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    1. Na minha opinião, não faziam perguntas nenhumas. Que tipo de reportagem é aquela? Constatar o óbvio? Dar o prazer de ver a sua obra a quem foi o autor do crime? Não consigo perceber...

      Beijinho!

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  7. É de lamentar este jornalismo sensacionalista,que vende atraves da desgraça das pessoas,a exploração é tal que chega a dar vómitos.
    Bom dia

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    1. Vómitos, precisamente. Já não consigo assistir a estas "notícias.

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  8. Este pequeno video explica o que se passa com o jornalismo! :)

    http://www.youtube.com/watch?v=NH_3Iw8pL6A

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  9. Jornalismo??? Isso não é jornalismo, é palhaçada!
    E a questão dos fogos: enquanto os 'agiotas' se safarem, todos os anos será a mesma coisa.

    Não sou a favor da ditadura, mas na época do Salazar os presos limpavam as matas e quase não havia fogos; agora os presos até gerem os seus negócios na prisão!

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    1. "Agora os presos até gerem os seus negócios na prisão"! Nem mais! Está mesmo tudo dito.

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  10. Eu não consigo acrescentar mais nada. Talvez apenas que aos incendiários se aplicasse medida idêntica à que aplicava aos políticos, só substituindo a água pelo fogo.

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