Infelizmente, o tema não é novo. O episódio a que assisti, está longe de ser isolado ou de ser o primeiro do género. Também não será o último. Se há um tipo de gente que me causa assim uma náusea para cima do aceitável, é aquela gente que adora ser tratada por Dr/Dra. Aliás, não adora, que isso era pouco. EXIGE. Este gente exige que, antes do nome, antes de Maria ou António, ou Manel, ou Joaquim, seja colocado o título de Dra. ou Dr. Isso enche-lhes as entranhas de importância. Sentem-se logo assim a subir quatro ou cinco níveis na hierarquia humana. Qual? Aquela que acreditam que existe.
Na fila do supermercado, enquanto aguardava a minha vez, tropecei numa destas pessoas. Um homem (não vou chamar-lhe senhor porque a minha definição de senhor não se aplica a qualquer um) exigiu, da forma mais sobranceira que possam imaginar, que a funcionária o tratasse por Dr. Ao que entendi, surgiu um problema com o cartão multibanco do Sr. Dr. A situação já se arrastava há uns minutos, quando a funcionária teve o azar de proferir uma frase semelhante a "O senhor tem que verificar com o seu banco o que se passa, não faço ideia". O homem, já furioso com a demora e os olhares de terceiros, decide largar a seguinte pérola "Para começar, vai tratar-me por Sr. Dr. X! Não sabe ler?" E voilá. Cá está. O cartão multibanco deste homem, ao contrário do que acontece com o seu Cartão do Cidadão, terá o título de Dr. antes do seu nome. Clap, clap, clap. Bela merda, se me permitem, foi o que me apeteceu gritar lá de trás. Ao lado, a senhora que o acompanhava, estava, ou eu estou doida, genuinamente envergonhada com esta postura. A minha revolta aumentou quando percebi que a funcionária, ao invés de meter a criatura no lugar com a resposta que merecia, pediu desculpa e passou a trata-lo por Sr. Dr. X. Sempre fui contra a máxima "O cliente tem sempre razão". No entanto, também eu lido com o público. Não desta forma, não tão directamente, mas o suficiente para saber que, por vezes, há que ignorar, engolir um sapo e atirar para trás das costas.
Há neste País um fenómeno que não sei se ocorre noutros. É o fenómeno da doutorice aguda. Quem dela sofre, tira um curso superior e acredita que, a partir desse momento, tem o direito de ser tratado de forma superior pelos outros. Elevou-se a um nível que nem todos atingem. Deixou de suportar ser tratado apenas pelo nome que lhe foi dado pelos Pais. Isto para mim, prova uma só coisa que os meus Pais tantas vezes disseram: instrução não é sinónimo de educação. E é bem verdade. O Sr. Dr. pode ter instrução, mas educação? Essa não se pode comprar.
Isto é gente que me causa uma repulsa difícil de transmitir. E antes que alguém pense, ou me venha dizer, que isto é dor de cotovelo, eu tenho um curso superior. Mas o dia em que exigir a alguém que me trate por Dra., será o dia em que eu não sou eu. Em que todos os valores que me transmitiram se perderam. Será o dia em que me esqueci de todas as minhas origens e que as pessoas valem muito mais do que aquilo que os cursos ou empregos dizem delas.

