Há várias coisas que me preocupam na afirmação "É como brincar aos pobrezinhos". Sim, preocupam, por muito que um lado meu ache que devemos ignorar o disparate na sua forma mais básica, mas já vos explico porquê.
Que toda a afirmação é de uma infelicidade gritante, parece-me pacifico. É mesmo uma frase paupérrima (olha eu a entrar no espírito) que encerra em si vários problemas. Não só a sua autora não tem noção do significado da palavra pobre, como não tem qualquer pudor em diminuir ainda mais quem vive nesta condição : pobrezinhos. Nem pobres são, são assim uma coisa ainda mais pequena e insignificante. Independentemente da forma como pretendia proferir a sua ideia (?), achar que um pobre (um pobrezinho, corrijo) passa férias na Comporta, é o atingir do nível mais extremo da falta de noção. O pobre, vive no desemprego. E mesmo o pobre que está empregado e que tem direito a férias, não tem como pagá-las. E não tem como pagá-las noutros locais, quanto mais na Comporta, que é conhecida por albergar precisamente este tipo de pessoas. Vamos chamar-lhes ricos, para não dizermos outra coisa. Riquinhos, vá.
Ainda assim, honestamente, nem é tanto esta afirmação, por si só, que me preocupa. Revolve-me todas as entranhas, confesso. Deixa-me pasmada, à espera que exista algum tipo de explicação que não a pobreza de espírito pura. Mas o que mais mexe comigo, nem é isto. O que mexe comigo, é que isto é cada vez mais o retrato deste País. É a mentalidade. Um País em que mais de 1/3 da população vive na pobreza ou no limiar da pobreza, enquanto que os outros, os que ditam o poder neste País, ignoram esta realidade inconveniente e desinteressante aos seus olhos. E ainda troçam dela. Ainda a espezinham e menosprezam. Quando um membro de uma das famílias mais poderosas deste País, faz uma afirmação destas, nas circunstâncias actuais, e não tem noção que irá indignar e ferir mais de metade de uma Nação, estamos mal. Estamos muito mal.
A falta de consciência social, é indício da falta de muitas outras coisas, todas importantíssimas. A pobreza é um assunto sério, demasiado sério. O número de pessoas que vive na pobreza neste País, é assustador. Não se brinca com este assunto. Há quem se espante com o número de indignados perante a afirmação. Há quem ache que se dá demasiada importância à afirmação de uma só pessoa. Eu, por acaso, acho que estamos, cada vez mais, perante a mentalidade deste País. Que é cada vez mais um País de extremos sociais, no qual quem tem poder está convencido de poder dizer e fazer qualquer coisa. No qual quem vive de forma desafogada não faz, nem nunca fará, ideia do que é ser pobre. Mas acha que pode brincar com o assunto. Estamos bem. Está tudo bem. Os indignados é que não têm sentido de humor algum. Até nisso são pobres.